ATIVIDADE PEDAGÓGICA – Produção de textos analíticos

* Gibran Luis Lachowski

A produção de textos analíticos se constituiu neste semestre numa atividade pedagógica da disciplina “Ética e Legislação Jornalística”, ministrada a estudantes do 6º semestre do curso de Jornalismo da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat)/campus de Alto Araguaia. Foram 13 artigos baseados em conteúdos apresentados e debatidos entre maio e julho.

Acredita-se que essa proposta pedagógica também contribua para uma formação que estreite laços com os observatórios de mídia e em específico com o “Boca da Mídia” .

Abre do texto de aprensentação

Calçadas de Alto Araguaia/MT são prolíficas em filosofia. (Foto: Gibran Luis Lachowski)

A atividade correspondeu à segunda nota da disciplina, envolvendo exposições dialogadas dos assuntos em sala, produção dos artigos em casa, correções docentes e veiculação. A empreitada sucedeu a leitura e debate sobre a relação entre a obra “Os exploradores de cavernas”, de Lon Fuller, com os conceitos de moral e ética sob a dimensão filosófica.

Os textos d@s estudantes versaram sobre o Código de Ética d@s Jornalistas Brasileir@s e seu diálogo com alguns temas centrais, como verdade, sensacionalismo, privacidade e mimetismo midiático. Trouxeram a necessidade da deontologia e sua aplicação a partir de instrumentos deontológicos. Nesse sentido, além da autorregulação, referiram-se à Lei do Direito de Resposta.

Refletiram sobre a importância da democratização da comunicação para o respeito ao direito fundamental à informação. Expuseram a proposta do quinto poder como forma de revigorar a democracia e de uma ética jornalística que se valha de valores sociais cultivados pela “pós-modernidade” para revitalizar bons velhos princípios humanísticos.

E, como é basilar porém urgente repetir até derramar suor, apresentaram a inseparável combinação entre acusação e comprovação.

Vislumbrou-se como objetivo central da atividade pedagógica o estímulo à leitura crítica sobre a produção jornalística. Espera-se que o intento tenha ficado visível a partir da publicação dos artigos.

Ei-los:

https://objormt.wordpress.com/2017/08/07/caminhos-errados-do-jornalismo-existe-solucao/

https://objormt.wordpress.com/2017/08/07/falta-de-apuracao-o-mal-do-jornalismo/

https://objormt.wordpress.com/2017/08/07/discussoes-sobre-a-etica-no-jornalismo-casos-de-vitimas-de-falsas-noticias/

https://objormt.wordpress.com/2017/08/07/a-etica-da-informacao-e-a-rotina-d-jornalista/

https://objormt.wordpress.com/2017/07/24/vigiar-ou-punir-das-funcionalidades-do-oficio-de-jornalista/

https://objormt.wordpress.com/2017/07/18/conhecereis-a-verdade-e-ela-vos-libertara-discorrendo-sobre-o-valor-fundamental-da-informacao/

https://objormt.wordpress.com/2017/07/10/noticias-falsas-e-a-etica-profissional/

https://objormt.wordpress.com/2017/07/08/quebra-de-sigilo-telefonico-investigacao-ou-invasao-de-privacidade/

https://objormt.wordpress.com/2017/07/05/a-forca-cidada-como-quinto-poder-uma-analise-do-artigo-de-ignacio-ramonet/

https://objormt.wordpress.com/2017/06/25/quatro-anos-de-faculdade-para-que/

https://objormt.wordpress.com/2017/06/22/falando-sobre-etica-um-paralelo-entre-o-codigo-o-mercado-de-noticias-e-questoes-fundamentais/

https://objormt.wordpress.com/2017/06/17/os-barbeiros-da-era-digital/

https://objormt.wordpress.com/2017/06/16/jornalistas-em-guerra-com-os-rumores-e-mentiras/

Boa leitura!

* Professor do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia e docente da disciplina de Ética e Legislação Jornalística neste semestre

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Caminhos errados do jornalismo: existe solução?

 *Neila Grenzel

Existe uma linha tênue entre o jornalismo praticado no Brasil e o que é ensinado aos alunos nos cursos de graduação. Para dentro da sala de aula os professores tentam passar a ideia da profissão como responsabilidade social, atender os interesses públicos e não do público, e o clichê de “sempre ver todos os lados”. Infelizmente a situação dentro das redações nas grandes empresas de comunicação é bem diferente da teoria ensinada. Interesse econômicos e políticos são as forças que determinam a notícia, muitas vezes manipuladas.

Essa dicotomia da práxis jornalística cria novas barreiras na tarefa do professor de jornalismo. Hoje são poucos os alunos que não se encontram frustrados ao acompanhar o mercado. Parece que ser ético ao gerenciar informações é antiético. A autocensura pode começar na graduação. Omissão ou manipulação para não incomodar quem lhe convêm.

Um exemplo parecido foi narrado por Bernardo Kucinski, jornalista e professor universitário, em artigo publicado no Observatório da Imprensa, em 2002. Ele conta um incidente que colocou sua didática de ensino de ética sob reflexão. Percebeu que seu método precisava ser atualizado quando seus alunos – turma homogênea, todos com média de 10 anos ativos no jornalismo – se posicionaram contra a ideia de uma prática jornalística comprometida com o Código de Ética dos Jornalistas e afirmaram que o jornalista tem de fazer o que patrão manda, por uma questão de sobrevivência.

Nesse contexto, o autor sugere uma nova ética e novos “não-valores”.

Não se trata da morte dos valores, mas da prevalência de determinados valores como tolerância, pluralismo, sucesso pessoal e liberdade individual que no seu conjunto e principalmente na forma como se articulam, definem uma matriz ética perversa pelos critérios de virtuosidade de nossa ética agora ultrapassada. Talvez devamos dizer que a ética da pós-modernidade é marcada também pelo declínio dos valores solidariedade e compaixão que marcaram a humanidade nos pós-guerra, e pelo predomínio de valores não valores, como o ceticismo, o cinismo, a negação da utopia e da justiça social. (KUCINSKI, 2002, p. 8)

De modo sucinto, a proposta de Kucinski é mudar o discurso usado com os aspirantes à jornalistas. A pretensão é engrenhar a ética no ensino não como ideologia, mas como parte da técnica.

Nos momentos de maior desespero ético, tenho apelado junto a meus alunos para o mais puro individualismo. Pergunto a eles: vocês querem ser mais um jornalista medíocre no meio dessa massa de jornalistas que nunca farão nada de importante na vida? Provoco seu brio. Machuco sua auto-estima. Pergunto onde foram parar seus sonhos? Se não têm sonhos como todo jovem tem. Se não têm a ambição de serem os melhores, os mais bacanas, os mais bem-sucedidos. É um argumento cativante porque parte da mentalidade existente, fundada na idéia do sucesso pessoal, do vencer na vida, chegando de modo natural à concepção do grande jornalista, ou seja do bom jornalista. E o bom jornalista é necessariamente um jornalista ético. (KUCINSKI, 2002, p.9)

Essa atitude do professor foi uma forma de “cortar o mal pela raiz”. O objetivo era melhorar a realidade jornalística ainda durante a formação do profissional. O feito tem 15 anos, mas as lutas nesse sentido continuaram. Um Projeto de Lei de Iniciativa Popular que propõe uma Mídia Democrática foi criado em 2013.

No Brasil, menos de dez famílias são donas dos meios de comunicação. Os efeitos disso tudo é a oligopolização da informação e entretenimento, manipulação das propagandas, que tendem a um padrão estético e enchem as mentes de crianças e adolescentes com brinquedos e roupas que não precisam, omissão de dados, sensacionalismo e falta de ética. E isso tudo é transmitido ao público e interfere na construção sociocultural.

Um documentário feito pelo Coletivo Intervozes em 2009 é um bom exemplo dos males do oligopólio e da luta social pela democratização da mídia. A película teve o objetivo de refletir sobre o assunto, animando as discussões do processo de conferências locais, estaduais e regionais acerca do tema, que culminou com sua edição nacional, em dezembro do citado ano.

O projeto de Lei de Democratização da Mídia prevê a divisão do sistema de comunicação em privado, estatal e público, na busca de quebrar o oligopólio midiático existente, combate todo tipo de discriminação e estabelece consultas públicas para as renovações das concessões de TV e rádio.

Talvez em um futuro próximo (ou distante) os corredores de faculdades não tenham alunos e professores de jornalismo preocupados com o futuro, e o grupo de pessoas que sabem que tem coisa errada no sistema ganhe a luta para que o papel do jornalista volte a ter representatividade social e democrática. A luz no fim do túnel é ver que existe uma movimentação em busca de mudar a mídia brasileira, “que está comprada”, e ao mesmo tempo, sem valor.

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

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Falta de apuração, o mal do jornalismo

* Daniela Meinerz

julgamento

A mídia interfere diretamente nas opiniões e pensamentos de boa parte das pessoas, sendo capaz de induzir suas atitudes e comportamentos. Por isso uma boa apuração jornalística é essencial para comprovar a veracidade de fatos divulgados, seja em TV, rádio, impressos ou em sites e blogs. Evita-se assim que informações falsas façam com que pessoas inocentes sejam julgadas e condenadas pela sociedade.

O oligopólio midiático influencia diretamente no sentido de que notícias tendenciosas sejam veiculadas. Um outro mal que atinge os meios de comunicação é a dificuldade de saber lidar com a necessidade do furo jornalístico, fazendo com que o profissional, na ânsia de ser o primeiro a informar, não apure profundamente ou leve em consideração apenas fontes ocultas.

Inúmeros casos de pessoas linchadas e até mesmo de prisões preventivas acontecem diariamente, sendo que depois comprovam-se suas inocências. E o maior culpado por esse tipo de fato é a mídia, que tenta agir como juiz social, divulgando quem é culpado ou não sem ter de fato certeza.

Um entre tantos casos

Temos como exemplo uma edição do Jornal Nacional, da Globo, que divulgou que o empresário Joesley Batista deu detalhes de duas contas no exterior nos nomes da ex-presidente Dilma e do ex-presidente Lula. Logo após a assessoria do político entrar em contato com a emissora a equipe de jornalismo teve que fazer uma retratação falando que o mesmo tinha na verdade duas contas em nome dele mesmo com dinheiro destinado a campanha eleitoral.

Tais informações divulgadas erroneamente fazem com que o público se revolte e queira que os possíveis culpados sejam condenados, e em casos mais extremos, a sociedade se reúne para fazer “justiça com as próprias mãos”. Por isso é que o artigo 6º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros diz que “O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pauta pela precisa apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação.”

Como defende Tóffoli (2008), a informação jornalística deve se pautar pela ocorrência ds fatos e objetivar o interesse social e coletivo.Portanto, se faz necessário que profissionais da comunicação tenham a formação necessária para que esses tipos de erros não se tornem corriqueiros e para que trabalhem de acordo com a ética jornalística.

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

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Discussões sobre a ética no jornalismo – Casos de vítimas de falsas notícias

 Caroline F. Lynch

Com o acesso à informação cada vez mais fácil, aumenta o número de casos de boatos que se espalham rapidamente e se tornam verdades compartilhadas por um incontável número de usuários na internet.

Este é um assunto bastante discutido ultimamente e que continua acontecendo sem que nenhuma providência concreta seja tomada (até mesmo a Lei do Direito de Resposta  tem tido pouco efeito). A corrida pelo furo de reportagem contribui em alguns casos, já que ninguém quer ficar para trás em um mundo de instantaneidade da informação. Novamente entra em pauta a questão ética no jornalismo e a responsabilidade do jornalista ao apurar a notícia para posterior publicação.

Muitos casos podem ser aqui elencados, de cidadãos inocentes que se viram em situação de risco após serem envolvidos em notícias falsas. Um dos mais recentes e chocantes aconteceu no Guarujá (São Paulo) no ano de 2014. Fabiane Maria de Jesus foi espancada até a morte após ser confundida com uma sequestradora que teve seu retrato falado publicado por um portal de notícias da região. O advogado da vítima chegou a redigir, em parceria com o deputado federal Ricardo Izar (PP de São Paulo, um Projeto de Lei (7.544, de 2014) que nunca foi à votação em plenário. A proposta sugere o aumento da pena para incitação de crimes virtuais.

No caso de Fabiane os agressores foram punidos, o dono do portal de notícias não.

Um episódio clássico de erro jornalístico no Brasil é o Caso Escola Base, cujas pessoas acusados sem provas até hoje sofrem as consequências.

 

E as discussões continuam

No 11º Simpósio de Jornalismo que aconteceu na Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat)/campus de Alto Araguaia, o professor Thiago Cury, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)/campus de Cuiabá, mencionou que a grade do curso na capital foi alterada para que a disciplina de Ética fosse ministrada no primeiro semestre, para que assim alguns problemas relacionados à falta dela no mercado de trabalho fossem ao menos amenizada.

É na academia que se reforça a importância da credibilidade e regras do bom jornalismo. Daquele que relata a verdade baseada em fatos e não suposições, como infelizmente acontece. Ocorre que ao mesmo tempo que a internet é importante mecanismo para auxiliar o profissional, a velocidade em que a informação circula pode atrapalhar a credibilidade e confiança do veículo.

Em sua obra, Ética no Jornalismo (2008), Rogério Christofoletti fala da importância da discussão, reflexão e estudos sobre a ética na profissão desde a universidade. O autor afirma que é fundamental que o jornalismo se aperfeicoe a partir da modernidade tecnológica, formação acadêmica de qualidade e ética na comunicação, reforçando o que fora dito no parágrafo acima, ressalta Ana Claudia Marques Geovatto em resenha sobre o livro.

Em mais um caso envolvendo vítimas de acusações falsas noticiadas, Leandro Santos de Paula, estudante carioca de 22 anos, teve seus dias de tranquilidade abalados após um site publicar que ele seria o carcereiro de Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro preso na penitenciária de Bangu. Um vídeo gravado pelo jovem em 2009 foi o motivo do incidente. Leandro teve uma discussão com Cabral após uma pergunta sobre melhorias na comunidade onde mora e irritou o então governador, que disparou um “otário”, registrado pela câmera do estudante.

De posse do vídeo e diante da prisão de Cabral, o advogado Emanuel Grilo, proprietário do site “Joselito Muller”, publicou o texto com a foto de Leandro, que rapidamente se espalhou pelas redes e grupos do aplicativo de mensagens WhatsApp. O fato ocorreu no final do mês de janeiro deste ano e só foi desmentido em março. Durante este período Leandro teve que faltar às aulas do cursinho pré-vestibular (que estuda para passar em Jornalismo) e não podia sair de casa com medo dos traficantes da comunidade. “Os sites nem sabiam meu nome. Eles só usaram o vídeo que eu fiz em 2009 para ter uma notícia relacionada à Lava-Jato”, afirma Leandro.

O advogado e dono do portal de notícias alegou que não se sente responsável em nenhum momento, uma vez que seus textos são sátiras e que responsáveis são aqueles que compartilharam a informação nas redes.

O que dizer quando isso acontece em tempos onde quem tem acesso à internet e é alfabetizado se sente no direito de escrever sobre determinado assunto e repassar sem se sentir responsável pela veracidade (ou não) da informação?

Um nova perspectiva

O jornalista Bernardo Kucinski (2002, p. 2), em seu artigo “Uma nova ética para uma nova modernidade”, fala sobre os desafios que enfrentou em sala de aula com alunos que já estavam no mercado de trabalho, que defendiam a prática do jornalismo como mandam os patrões e não as regras e postura ética da profissão:

No dia-a-dia, o vazio ético é reforçado por mecanismos diversos entre os quais o fim da demarcação entre o jornalismo e assessorias de imprensa, a fusão mercadológica de notícia, entretenimento e consumo; a concentração de propriedade na indústria de comunicação, a crescente manipulação da informação por grupos de interesse e principalmente a mentalidade pós-moderna (…).

Vivemos em um país onde grandes grupos econômicos dominam os meios de comunicação, forçando grande parte dos jornalistas a aceitar e trabalhar seguindo as normas da empresa e não as do código de ética da profissão, sob o risco de perder sua vaga na redação. A crise ética discutida por Kucinski é realidade e não pessimismo, é uma constatação.

Talvez com o avanço tecnológico que presenciamos dia após dia, as pessoas compreendam melhor a internet e como usar este meio de informação de forma crítica, sabendo identificar boatos e realidade. Quem sabe desta forma a apuração por parte dos profissionais passe a ser mais importante que o mero repasse de notícias e o respeito à prática jornalística prevaleça, para que casos como os do advogado dono de um portal de notícias “satíricas” caiam em desuso.

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

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A ética da informação e a rotina d@ jornalista

* Caroline F. Lynch

Pensar na deontologia do jornalismo é imaginar regras e normas éticas que devem ser seguidas à risca pela profissão, como em qualquer outra. Os jornalistas, teoricamente têm liberdade para escrever e publicar notícias que respeitem essa liberdade, desde a fonte até o público.

Daniel Cornu, em seu livro “Ética da Informação” (1998), explica sobre os instrumentos deontológicos de forma clara e objetiva, elencando conselhos, federações, organizações, mediadores, associações e declarações como meios de orientar e organizar a profissão. Deve-se ficar atento e analisar a estrutura e funções de cada uma dessas instâncias, visto que tratam de regras que norteiam profissionais da área.

O autor comenta que a ética no jornalismo surgiu da necessidade de estabelecer normas para a profissão, que passava pelo processo de reconhecimento, em meados do século XIX. O tratamento das informações e como elas deveriam ser repassadas ao público era o mais importante.

ética informação

Falando em ética da informação na atualidade, pensemos no papel do gatekeeper. O termo foi criado pelo psicólogo Kurt Lewin em 1947 e aplicado ao jornalismo em 1950 por David White. Observemos, de modo panorâmico, o papel do selecionador de notícias nas redações atuais. Com base na afirmação de Cornu, que diz que “o jornalismo só existe porque é importante para a sociedade” (1998), o jornalista tem a função de analisar o que é relevante para seu público, mas, também para a empresa em que trabalha.

Em um artigo para o jornal “Imprensa da Universidade de Coimbra”, Cornu (2015) fala sobre a relação que se estabelece entre a liberdade de criação do profissional e sua postura diante da organização em que trabalha quando se vê inserido em relações sociais impostas pelo veículo. Para o pesquisador,

A estas relações sociais está associado um dos aspetos problemáticos da informação moderna: a atividade crescente dos profissionais da comunicação, relações públicas, adidos de imprensa, cuja função é fazer passar as mensagens favoráveis às instituições ou empresas que os contratam, controlar a informação que a eles respeita. Esta função é diferente da dos jornalistas, cuja referência única na escolha e no tratamento da informação é ou deveria ser o interesse público. Convém não ceder ao maniqueísmo: os profissionais da comunicação também são, em muito domínios, intermediários preciosos de informação. É portanto imposta aos jornalistas uma vigilância de todos os instantes, encarregados de velar por que aqueles não se tornem parasitas e não venham confundir a informação devida ao público. (CORNU, 2015, p. 114)

 

A velocidade e obsessão pelo furo de reportagem somados ao acúmulo de funções faz com que o profissional se apegue mais ao tempo e às obrigações estabelecidas pelas relações sociais do que à informação e sua veracidade.

A história era outra

A ânsia por dar a notícia antes de todos os outros concorrentes levou diversos jornais e sites a publicar, recentemente, que o irmão de Suzane Von Richthofen, acusada de assassinar os pais em 2002, foi encontrado na Cracolândia em São Paulo, no dia da desocupação realizada pela prefeitura da cidade. Rapidamente, vários portais de notícia divulgavam o fato como uma reação em cadeia. Em minutos, as redes sociais estavam repletas de compartilhamentos e comentários de internautas alimentando o assunto. Ocorre que a história era outra. O rapaz estava, sim, sob o efeito de drogas e foi abordado pela polícia em estado de desorientação e confusão mental, tentando pular o muro de uma casa e não na Cracolândia, como noticiado.

A falta de apuração aliada à necessidade de ser o primeiro a dar a notícia formou uma rede de informações desencontradas que se espalharam como rastro de pólvora, o que é comum na era digital. Mas e depois do fato esclarecido? Nada aconteceu. Apenas um veículo informou no final do dia  detalhes sobre o caso e estado de saúde de Andreas Albert Von Richthofen. Um longo texto no facebook falando sobre os perigos da falsa informação também foi publicado, mas não teve nem perto do número de compartilhamentos da primeira.

calvinjornal

Casos como este acontecem constantemente e aqui retomo a afirmação de Cornu – “a busca da informação não justifica o emprego indiscriminado dos métodos“ (2008). Meios obscuros de conseguir informações não estão relacionados somente ao contato entre as pessoas por meio de ameaças e pagamento pela informação, o plágio e alteração de fatos para vender mais notícias também são métodos desleais. O caso de Andreas Albert Von Richthofen é apenas um dentre vários acontecimentos, infelizmente.

Um grande desafio

Há muito ainda para ser estudado no campo da ética jornalística, não só sobre regras e normas como também de que forma segui-las em um universo de concorrência tão acirrada e acúmulo de funções por parte dos profissionais, que acabam por cometer erros banais por falta de tempo e obrigação em produzir em volume e não em qualidade.

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

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Vigiar ou punir – das funcionalidades do ofício de jornalista

* Luiza Purcino

Os mais leigos imaginam que a prática jornalística advém do denuncismo, da observação daquilo que não corresponde ao fluxo. De fato, a denúncia é uma das “pontualidades” do exercício jornalístico, já que somos colocados como observadores dos fatos. Sendo assim, quais os cuidados que essa representação dos fatos vigiados devem possuir? Como veicular uma informação que pode acarretar a punição dos envolvidos?

O que primeiro se pontua na profissão jornalística é que tratamos de pessoas. Antes de qualquer acusação, a verdade ou mentira das notícias diz respeito à vidas, seres humanos que estão inseridos em sociedade e vulneráveis a reações daqueles que se informam através de nossos veículos. Não se pode excluir o fato de que a imprensa dispõe de credibilidade o bastante para ser tomada como verdade grande parcela daquilo que por ela é veiculado. Outro ponto importante é que nós, jornalistas, somos geridos por um código de ética que assegura o direito à informação, e informação verdadeira.

Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito
fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que:
I – a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e
deve ser cumprida independentemente de sua natureza jurídica – se pública, estatal ou privada – e da linha política de seus proprietários e/ou diretores.
II – a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos eter por finalidade o interesse público;

Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros – Fenaj, 2007

Além disso, desde o início da vida acadêmica o que mais se aprende é que a nossa prática depende e deve suar, se esgotar (até o último suspiro) em apurar. Jornalista não escreve, não filma, não fala sem ter certeza, ter certeza absoluta e ter a prova disso, senão caberia o relato dos fatos a qualquer pessoa, em qualquer esquina.

Ora, não estamos presos na peça teatral de “O Mercado de notícias” , cuja autoria é do dramaturgo inglês Ben Jonson e data de 1625, não vendemos o que as pessoas querem que seja verdade, nosso ofício é vigiar aquilo que tem de ser feito.

São inúmeros os casos de acusações. Mas é ofício do jornalista acusar?

acusação

Bem, é parte da nossa conduta profissional combater e denunciar todas as formas de corrupção e ações que prejudiquem o interesse público. O que sinaliza-se nessa parte é a maneira como isso deve ser feito, e é para isso que servem as universidades. Se em algum ponto cabe a defesa do diploma da profissão, é na colocação da importância da universidade. É aqui onde se diferencia um profissional que aprendeu as técnicas de redação jornalística. É parte da ementa da disciplina de Técnicas de Redação Jornalística o item “métodos e recursos da apuração jornalística”, peça-chave para a exclusão de especulações, o que é corroborado e aprofundado por outras tantas, que tratam da deontologia da profissão e os conceitos sobre a área.

“A imprensa deve publicar, na categoria de informações, o que seja verdadeiro, pois a ficção é objeto dos romances”.

(ERBOLATO, 2001, p. 56)

 

A cargo de exemplificação, um caso de acusação ocorrido em novembro de 2016 foi bastante comentado na mídia internacional. O jornalista Gabriel Anello, da emissora de rádio Mitre, acusou o jogador argentino Ezequiel Lavezzi de cnsumir maconha antes da partida dos ‘hermanos’ contra a Colômbia. A acusação gerou comoção de outros jogadores que, comandados por Lionel Messi durante uma coletiva, romperam com toda a imprensa, e transformaram o assunto em ações legais contra o jornalista.

Assim também aconteceu no caso Milly Lacombe, comentarista da Sport TV, programa do canal fechado da Globo, que acusou em 2006 que Rogério Ceni havia falsificado uma assinatura para jogar no Arsenal, Inglaterra, com o intuito de conseguir aumento de salário no São Paulo. O caso foi levado à justiça e em 2011 o goleiro foi indenizado por danos morais (Ver +).

A função do jornalista é vigiar, a punição cabe aos órgãos judiciários. Se a acusação for feita de forma errônea e a apuração se basear em equívocos, a punição passa diretamente ao jornalista que a divulgou. A notícia é uma construção da realidade e deve ser tratada como tal. A imprensa só terá verdadeiramente credibilidade quando nós, jornalistas, só veicularmos aquilo que “cansamos” de apurar e soubemos colocar de maneira clara e objetiva no papel, na fala ou no vídeo.

Alguns termos com os quais se deve ter cuidado

 

Referência 

ERBOLATO, Mario. “Técnicas de Codificação Em Jornalismo  – Redação, Captação e Edição no Jornal Diário”. Editora Ática: São Paulo, 2001.

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

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Conhecereis a verdade e ela vos libertará? Discorrendo sobre o valor fundamental da informação

* Luiza Purcino

A deontologia jornalística sugere: a verdade deve ser um valor fundamental na prática profissional. Parece óbvio esse pilar em qualquer ofício, mas é um pouco mais complexo se levado em conta tratar-se de uma profissão da qual não se obriga formação e sob um contexto de tecnologias ao alcance da maioria. Não bastasse, os pequenos núcleos sociais, geograficamente isolados e sem formação intelectual, como acontece na região Norte do Brasil, são comandados em grande parte por profissionais antigos, também sem formação, que não se adaptaram a esse novo ambiente.

E no que isso implica na ideia de verdade? “Ora, mesmo que a informação não seja veiculada por um profissional formado, não significa ausência da verdade” – esta pode ser uma afirmação verdadeira, mas que não leva em consideração a deontologia da profissão. Deontologia consiste no conjunto de normas que guiam o profissional da área. Como conhecê-la pelo senso comum?

O boom das redes sociais é mestre em suas divulgações falsas. Utilizada de maneira jornalística através do compartilhamento de notícias, muitas vezes veiculam chamadas mentirosas, assim ferindo fontes e pessoas envolvidas.

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Imagem: http://www.savronnoseuquadrado.com.br

Existem inúmeros cursos que pretendem educar o jornalista a filtrar tais tipos de informação, funcionando como uma espécie de “direito de resposta”, uma ferramenta de retificação nesses casos. O IJNET, uma rede de jornalistas internacionais, trabalha com o intertítulo “notícias falsas” como estratégia para o que se chama de combate à desinformação, veiculando cursos e formas de verificação.

Competir com as tecnologias é um dos desafios do neojornalista. Como assegurar a verdade, o papel social da profissão diante a autonomia dos civis à noticia? O que é muito escutado durante o período acadêmico: verificar, verificar e verificar. Não significa se rudimentarizar, largar os smartphones e voltar às papeletas de anotações. Significa se utilizar de todos esses aparatos para apurar a notícia até o mais fundo que se pode chegar.

 

A dúvida como metodologia de trabalho

Leandro Fortes disse uma vez, em entrevista ao documentário “O mercado de notícias” (2014), de Jorge Furtado, que o jornalista não pode ter preguiça nem timidez. Acrescento então o que pode ser fundamental para assegurar a verdade das informações: o que o jornalista deve ter é dúvida. E isso deve ter sempre. O que nos faz conhecer e buscar é duvidar. E o jornalista que duvida nasce dentro das salas de aula, quando começa a assistir aos jornais se perguntando “qual a intenção desse noticiário em veicular essa informação?”. Se pensar dessa forma na hora de produzir, de apurar, o leitor certamente não irá se questionar internamente.

A verdade é valor fundamental da profissão porque beneficia a todos. Ganha o leitor, ganha a empresa e ganha o seu autor. Seja por prestígio, confiabilidade ou papel social, a imprensa só será livre quando a verdade for, fidedignamente, respeitada.

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

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Notícias falsas e a ética profissional

*Daniela Meinerz

mentiraNão é de hoje que lemos notícias falsas sobre diversos assuntos. Um famoso que morre, uma pessoa que é presa, uma traição. Tudo isso, com a intenção de atrair o leitor a acessar a notícia e alavancar as visualizações do seu meio de comunicação. O sensacionalismo é visível nos meios midiáticos em geral. Sem se preocupar com o público, muitos deles postam uma matéria que foge à ética do jornalismo somente para lucrar.

No capítulo 1 (“Os Instrumentos da Deontologia do Jornalismo”) do livro “Ética da Informação”, de Daniel Cornu, o autor fala sobre a adoção da “Declaração dos deveres e direitos dos jornalistas”. Entre os dispositivos estão o respeito à verdade em razão ao direito do público, retificação de notícias inexatas e respeito à pessoa, em particular à observância de preceitos legais contra atentado a honra.

Ao conhecer essa declaração, fica notável que muitos “jornalistas” não sigam inúmeras das condutas éticas que rege a profissão.

ética informação

Um caso muito conhecido e que gerou repercussão internacional foi o do filho do ex-presidente Lula, o “Lulinha” (Fábio Luis Lula da Silva), no qual era acusado de ser um dos donos da Friboi (empresa alimentícia). Diversas mídias publicaram matérias que diziam que ele era o legítimo dono, entre elas o site G1 e a revista Veja. Essa história foi desmentida pelo próprio dono da empresa, Joesley Batista, em uma delação à operação “Lava Jato” para Polícia Federal. Após a declaração, alguns sites postaram notícias esclarecendo os boatos. Hora Brasil e Brasil 247 foram alguns deles .

Além desse caso, podemos ver quase todos os dias nas nossas redes sociais matérias falsas dizendo que um determinado famoso morreu. São vários os que estão na lista, como Renato Aragão, Silvio Santos e atualmente o cantor Arlindo Cruz. Este último em uma ocasião foi encaminhado para o hospital e enquanto isso alguns sites já publicavam sua morte.

A falta de apuração causa uma distorção nas matérias publicadas e isso acaba afetando o leitor, que se baseia no que está lendo. A necessidade de ser o primeiro a postar a notícia acaba deixando de lado a ética profissional.

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

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Quebra de sigilo telefônico: investigação ou invasão de privacidade?

*Daniela Meinerz

No atual cenário político em que se encontra o país é possível observar diversas condutas que fogem da ética profissional como forma de expor indivíduos ao constrangimento e de denegrir sua imagem. O direito à privacidade tem sido violado constantemente através de grampeamento de ligações telefônicas que são expostas na internet, pelas redes sociais, e na televisão, como se fosse uma “revelação” à sociedade. Sabemos que esses são os dois meios mais eficazes de recepção da mensagem e que a repercussão é rápida e de longo alcance.

O Brasil vive uma verdadeira bagunça na política, as pessoas assistem e veem na internet a todo momento notícias de desvio de dinheiro público, favorecimento em licitações e negociações irregulares por parte dos políticos. Esse assunto divide a opinião de muitas pessoas que se baseiam no que é transmitido pelos meios de comunicação, definindo uma posição enquanto leitor/eleitor. E é claro que as mídias aproveitam a oportunidade de ganhar com isso.

privacidade

As autoridades competentes que investigam essas operações e supostos esquemas buscam de várias formas provas que incriminem os acusados. Não considero errado buscar os verdadeiros autores desses crimes e provar suas culpas, mas acredito que existe um limite quanto à privacidade de cada um e nem tudo convém expor à sociedade. Quando se está em uma investigação como a “Lava Jato”, a repercussão nacional e internacional é muito grande e tudo que se usa como suposta prova pode gerar um caos de proporções não imaginadas.

Que lógica deve orientar o jornalismo?

Como diz Luciene Tóffoli, no livro Ética no Jornalismo, “a lógica do mercado é vender, gerar lucros, os produtos precisam apresentar fórmulas simples, garantir aderência das massas sem a discussão dos valores que lhe são impostos” (2008). Então, para a geração de lucros não importa muito o que é ético, mas o que traz um retorno financeiro e que alcance muitas pessoas.

Um caso que gerou muitos comentários nas redes sociais e que teve forta transmissão na TV em 2016 foi a conversa do ex-presidente Lula e o ex-ministro Paulo Vannucchi, na qual Lula chama as feministas de “mulheres do grelo duro”. Essa fala revoltou vários internautas que publicaram em seus perfis repúdio ao Lula. Essa parte da conversa era totalmente desnecessária e sem nenhuma relevância, afinal não ficou provada nenhuma culpa com essa ligação.  Ao contrário, só causou mais revolta na população e confundiu os pensamentos, pois a forma que foi exposta pela TV deu a entender algo que, na verdade, não tinha nada a ver com o que o ex-presidente queria dizer.

Existem outros casos de repercussão na mídia, como o da conversa entre o jornalista Reinaldo Azevedo e Andrea Neves, irmã do senador afastado Aécio Neves. Como no outro caso, a ligação não colaborou em nada, pois o conteúdo não incriminava os autores. Então, por que nesses dois casos houve a necessidade de mostrar isso para o Brasil todo? Interesses e pura falta de ética.

Formando opiniões

Por falar em mídias, elas adoram isso. A repercussão de notícias como essas vai render muitos ganhos. E na mídia de hoje, ganhar é o que vale mais. Sem contar que a maioria delas é parcial e deixa quase que declarada seu lado político, distorcendo fatos dos opositores e levantando a moral do seu “aliado”. E a ética? Acho que eles nem lembram que existe, afinal, bolso cheio rende mais.

No documentário O Mercado de Notícias (2014), Jorge Furtado põe em discussão a tese de que a imprensa se comporta como um partido opositor ao governo e que, por isso, não cumpriria seu papel enquanto jornalismo. Que as mídias escolhem um lado e que cada uma segue uma linha, trabalhando como agente político, mesmo que as mesmas não admitam. Sabemos que, principalmente as TVs e internet, são as maiores formadoras de opiniões e que, é claro, utilizam deste poder para direcionar o público.

Mas, independentemente de partido político, interesses pessoais ou da imprensa, é preciso saber até onde ir. Claro, existem grampos necessários e legais perante a lei, mas o que temos visto por aí são invasões de privacidade através de conversas que depois acabam nem sendo consideradas indícios de crime. Na maioria das vezes, isso são jogadas usadas como forma de “sujar” a imagem da pessoa na sociedade, ou seja, nada mais que interesses próprios.

Para tudo existe um limite e na privacidade não é diferente. Ter o bom senso de separar o que é relevante e o que não tem necessidade de exposição é correto e necessário, pois basta apenas “uma jogada” para uma reputação ser destruída. Infelizmente!

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

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A força cidadã como quinto poder; uma análise do artigo de Ignacio Ramonet

* Caroline F. Lynch

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Um artigo publicado na edição brasileira do Le Monde Diplomatique (nº 45), em outubro de 2003, traz uma discussão bastante atual quando menciona o jornalismo como o quarto poder. Assistir hoje a documentários, filmes e séries que falam do Brasil dos anos pré e durante o período da ditadura é imaginar (para os que não vivenciaram) o quão difícil foi sobreviver ao golpe e, mais ainda, observar como a categoria dos jornalistas era unida. União pela luta por um país livre, onde os fatos pudessem ser noticiados como ocorreram, sem censura.

O termo “quarto poder” fazia menção aos outros três principais – Judiciário, Executivo e Legislativo – que, como relata o jornalista Ignacio Ramonet no citado texto, podem e erram em suas decisões. Erram quando criam e aprovam leis que ferem as minorias, erram quando articulam-se em prol de interesses somente da elite. Neste contexto, o jornalismo surge como porta-voz de uma sociedade cansada de tantos desmandos. Cito o período da ditadura no Brasil por ter sido o momento mais vergonhoso da história moderna (não bastasse a mancha que a escravidão deixou até o século XIX), ceifando vidas e torturando incontáveis profissionais da comunicação que brigavam para defender os direitos do cidadão, entre eles a liberdade de expressão.

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O período das torturas e exílio passou, mas o constrangimento dentro das redações não. A censura do militarismo acabou, mas os tempos modernos trazem outra modalidade, a censura intelectual. Profissionais lutam para garantir o furo da reportagem, a primeira publicação antes da concorrência, o prazo para fechamento do jornal e ainda preocupam-se com o que podem ou não escrever. A linha editorial da empresa define o que será ou não publicado.

É preciso ter postura

No 11º Simpósio de Jornalismo da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), que aconteceu no campus de Alto Araguaia (distante 415 km da capital Cuiabá), o professor Ahmad Jarrah assinalou uma pertinente observação sobre este assunto. “Nunca aceitei fazer fotos de acidentes ou pessoas mortas. Isso fez com que eu recebesse muitas broncas de meus superiores no jornal”, comentou o profissional que, cansado do autoritarismo e situações constrangedoras, decidiu trabalhar sozinho produzindo fotos documentais.

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Fotógrafo defende jornalismo engajado. (Imagem: Marcus Mesquita/Midia News)

Situações como a de Jarrah mostram como o cenário do jornalismo como quarto poder mudou de alguns anos para agora. No artigo de Ramonet, fica claro que a corrida pela liderança e pelo lucro das emissoras tornou-se mais importante que a ética e a deontologia do jornalismo. Empresas têm investido cada vez mais em comprar pequenos empreendimentos para fortalecer seus grupos de comunicação e entretenimento, e o que acontece é o poder concentrado cada vez mais nas mãos de poucos.

O avanço da internet gerou uma nova maneira de comunicação, interação e diversão, e as empresas estão atentas a este processo para não perder lugar no competitivo mercado. Para Ramonet (2003),

A partir daí, as empresas de comunicação são tentadas a se constituir em “grupos” para reunirem todas as formas clássicas de comunicação (imprensa, rádio e televisão), mas também todas as atividades que poderiam ser chamadas de setores da cultura de massa, da comunicação e da informação. Três esferas que antes eram autônomas: de um lado, a cultura de massa, com sua lógica comercial, suas criações populares, seus objetivos basicamente mercantis; de outro, a comunicação, no sentido publicitário, o marketing, a propaganda, a retórica da persuasão; e, finalmente, a informação, com suas agências de notícias, boletins de radiodifusão ou de televisão, a imprensa, as redes de informação contínua – em resumo, o universo de todos os jornalismos.

 

Do oligopólio à infoxicação

Este universo de jornalismos a que se refere o autor, é um fenômeno mundial. Toda a produção de textos e conteúdo audiovisual é publicada em todos os meios disponíveis, com especial atenção à internet, por sua velocidade e alcance. Pela quantidade de informações disponíveis “ao alcance das mãos”, nota-se cada vez mais presente o processo da infoxicação, definida pelo Alfons Cornellá como a relação entre a informação e a intoxicação, que, segundo o físico, resulta na fadiga e stress do usuário diante do contato com a rede mundial de computadores.

Além da quantidade, Ramonet fala da qualidade do conteúdo publicado e faz uma comparação com os alimentos.

Durante um tempo demasiado longo, os alimentos foram raros, o que ainda acontece em inúmeros lugares do mundo.

Mas quando o campo começou a produzir em superabundância – em especial nos países da Europa Ocidental e da América do Norte, graças às revoluções agrícolas – percebeu-se que muitos alimentos estavam contaminados, envenenados por pesticidas, provocando doenças e infecções, produzindo cânceres e todo tipo de problemas de saúde, chegando ao ponto de semear ondas de pânico em massa, como ocorreu com a peste da “vaca louca”. Resumindo: antes, podia-se morrer de fome; agora pode-se morrer por ter comido alimentos contaminados… (RAMONET, 2003)

 

Com a informação tem acontecido o mesmo. Notícias chegam ao público contaminadas de mentiras e manipulação, tendenciosas e partidárias, sem dar ao receptor o direito da verdade dos fatos, o que suscita ainda mais a importância de uma lei em favor da mídia democrática. O que existe é a verdade dos grandes grupos econômicos que se tornaram as empresas de mídia, somente o que é de interesse dos empresários, não do consumidor.

 

A sociedade deve se mobilizar

Neste ponto é que Ramonet abre a discussão sobre o “quinto poder”. Questiona de que forma a sociedade pode se mobilizar para defender-se e lutar pelo direito de ter acesso à informação verdadeira. O autor fala da proposta de criação de um Observatório de Mídia, que seja o contrapeso aos desmandos das poderosas empresas. “A força desta entidade é, principalmente, de ordem moral: ela adverte baseada na ética e pune os erros de honestidade da mídia por meio de relatórios e pesquisas que elabora, publica e divulga”, afirma.

Um dos direitos básicos de todo cidadão é poder expressar livremente suas ideias, e se este direito lhe é vetado, cabe a união de forças para que a sociedade tenha vez e voz para questionar e rebater as informações que recebe. Não é apenas questionar o poder público ou o comportamento das emissoras em comentários nas redes sociais, pois isto é praticamente nada diante da situação de autoritarismo e manipulação dos veículos.

O povo brasileiro que tanto se orgulha em sair às ruas mobilizando milhões de pessoas para protestar contra o governo, é o mesmo que nem imagina a força que tem para mudar o cenário de deterioração política em que se transformaram as empresas de mídia. A união entre profissionais do mercado, professores universitários e consumidores de notícias de todos os meios pode fazer com que os próximos anos sejam de informações nas mãos do cidadão, fazendo com que as empresas percebam a urgência em mudar seu comportamento para atender o novo nicho de mercado: uma sociedade unida pela democracia da notícia.

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

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Quatro anos de faculdade para quê?

*Neila Grenzel

Em páginas humorísticas da internet é normal “memes” relacionados a situações jornalísticas e dizeres como “quatro anos de faculdade para isso”. Pessoas que não são da área dão risadas e passam para a próxima piada do dia. Aspirantes à profissão e jornalistas formados também dão risadas, mas é para não chorar. A precarização do jornalismo brasileiro é discutida nas faculdades, acadêmicos não sabem o que os esperam ao entrarem no mercado de trabalho.

Toda a teoria estudada em sala de aula não condiz com a prática jornalística. Informações de interesse público ficam em segundo plano, junto com a apuração. Declarações são suficientes para constituir algo em verdade ou mentira. Matérias são escritas em minutos, apenas com a ajuda de um computador ou celular.

Os valores-notícia (salve Lage e Wolf!) aprendidos no primeiro semestre do curso de Jornalismo, que de acordo com Luciene Tóffoli (2008) auxiliam na rotinização do trabalho jornalístico, parecem não existir quando nos deparamos com alguma notícia sobre um famoso que deixou a padaria mexendo no celular, ou quando o ator global é visto com uma loira misteriosa. Profissionais sérios nem consideram isso jornalismo, mas o problema é que leigos sobre o assunto têm uma visão contrária. O ponto X do problema é que a própria audiência se acostumou com o “jornalismo sentado”, mal apurado, e que se assemelha ao entretenimento.

 

A banalização

Podemos observar conteúdo jornalístico se igualando a “pão e circo” nos noticiários policiais, nos quais o repórter utiliza do apelo e sensacionalismo para gerar uma situação cômica e atrativa às pessoas. Atrativo não por seu valor informativo, mas por nutrir funções semelhantes a uma novela ou série televisiva: passar o tempo. Assim, o profissional satisfaz o desejo do seu público, e pisa no Código de Ética dos Jornalistas, no qual no artigo 7º, inciso IV, afirma que “O jornalista não pode […] expor pessoas ameaçadas, exploradas ou sob risco de vida […]”.

Para Tóffoli, o jornalismo brasileiro se tornou uma sociedade do espetáculo (só para loucos e só para raros, como diria Hermann Hesse em “O lobo da estepe”), onde acontece a fusão da ficção com a realidade.

Dramatizando a realidade, fazendo de cada um protagonista de uma história [não necessariamente a sua], ainda que seja pelo mecanismo da identificação. Para isso, nada melhor do que o espetáculo […] os medias caminham no sentido da satisfação dessa nova subjetividade, dos desejos que eles próprios [os medias] engendram nessa sociedade e também se encarregam em satisfazer. (TÓFFOLI, 2008, p. 41)

O sensacionalismo na práxis jornalística, a valorização do drama acima do viés informativo, não são problemas novos. O documentário “O Mercado de Notícias”, produzido por Jorge Furtado (2014), retrata, de forma teatral, como periódicos dos século XVII já circulavam notícias que “sensacionalizavam” a informação, ou até inventavam histórias, apenas com o intuito de vender seu produto: a notícia.

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Sem limites entre realidade e ficção (Imagem: Blog Gaveta do Ivo)

 

Alterar a cultura noticiosa

Os problemas são os mesmo, mas os tempos são outros. Hoje o processo noticioso não leva meses para se completar, os impressos não são mais transportados por cavalos de um ponto ao outro. Nem dependemos apenas de jornais impressos para nos informar, temos a internet ao nosso favor. A solução a curto prazo não sei, e penso que nem exista. Mas para mudar o jornalismo, e voltarmos a ser “o cão de guarda da sociedade”, primeiro é preciso alterar a cultura de consumo do público.

O leitor não pode apenas receber o básico do lead – o que, quando, quem, como, por que e onde –, mas deve também ter acesso à contextualização do fato, e de que forma isto pode interferir em sua rotina e meio social. A partir disso passa a ter condições de refletir sozinho ou em conjunto sobre o acontecimento e a sociedade em que vive.

 

Bibliografia

TÓFFOLI, Luciene. Ética no Jornalismo. Petrópolis: Vozes, 2008.

FURTADO, Jorge (produtor e diretor). O Mercado de Notícias [Documentário], 2014.

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

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Falando sobre ética: um paralelo entre o código, o mercado de notícias e questões fundamentais

*Luiza Purcino

Uma frase de William Hearst** circula pela rede descrevendo a profissão de jornalista da seguinte forma: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo resto é publicidade”. O que é relevante para o público em geral? O que a população mundial precisa saber? O que a América do Sul precisa conhecer? E o que ela sabe? Responder essas questões envolve uma série de preceitos e agonias. De fato, o que se aprende como principal ferramenta do jornalismo é que ele se baseia em fatos. Fatos verdadeiros (desculpe a redundância, mas nos dias de hoje é necessário).

No atual contexto em que vivemos, o sistema capitalista gerencia os campos da economia, política e, coincidentemente, o campo midiático. Todos esses atrelados a um esquema de troca. A batalha de “mentes e corações” da qual falou Clovis Rossi, em “O que é jornalismo? (1995)”, é ainda maior se confrontada entre poucos e muitos.

A grande máquina da produção de notícias atende a critérios, que pressupõem o interesse público. Variáveis de autor para autor, basicamente consistem em proeminência, celebridade, raridade, utilidade, proximidade, intensidade, oportunidade, entre outros. Esquematizar a notícia através desses parâmetros sugere orientação, um guia para que a produção do jornal mantenha a devida organização. A grande responsabilidade do jornalista gatekeeper é selecionar os fatos que entrarão como notícia a partir desses critérios.

É nesse ponto, o de seleção, que entra o perfil mercadológico da notícia.

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É preciso ética e compromisso social, dizia Gabriel García Márquez. (Imagem: Blog Paralelos e Hemisférios)

Um corte profundo

Além de todos os critérios de noticiabilidade de variados autores, o critério maior de seleção é o da linha editorial do veículo. Um veículo sobrevive pelos seus patrocinadores, por interesses econômicos e políticos desses patrocinadores, fato que já consiste em um crime grave contra o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, que afirma em seu artigo 2º: “Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse (…)”.

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Imagem: http://www.malvados.com.br/

Pessoalmente colocando, selecionar notícias por critérios pressupostos me parece mais um esquema de interesses de dentro pra fora do que uma estruturação organizacional, já que neste contexto muita coisa que poderia ser veiculada fica de fora. O critério de proximidade, por exemplo, perde a relevância conforme outros critérios sejam mais gritantes. A mídia sul-americana mais veicula fatos europeus do que da própria América do Sul. O caos é disseminado de forma espetacular; os papéis sociais são invertidos, assim como a supervalorização do estrelismo.

 

O mercado de notícias e o papel da imprensa

É exatamente o desvio de conduta da seleção de notícias que o documentário “O mercado de notícias” satiriza. Na obra, de 2014, dirigida por Jorge Furtado, o desenvolvimento do jornalismo como atividade econômica é teatralmente apresentado e intercalado com opiniões de grandes nomes da profissão, como Mino Carta, Raimundo Pereira e Janio de Freitas.

Qual o papel do jornalista senão o de garantir a verdade e a manifestação das diferentes vozes? O jornalismo é (ou deveria ser) a ferramenta fundamental da força do coletivo, narrar o real para que, democraticamente o povo reconhecesse essa realidade e lutasse por ela. Foi o que aconteceu com a série “fome”, apresentada pelo “Jornal Nacional”, da Rede Globo, em 2001, que comoveu a massa e contribuiu para a criação do programa social “Fome Zero” pelo Governo Federal tempos depois.

 

“Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo resto é publicidade”

(William Hearst)

 

Como pontua Tóffoli, em “Ética no jornalismo” (2008), ao citar HENN (1996), “o jornalista é um leitor privilegiado dos acontecimentos do mundo real, capaz de construir mundos possíveis e transmiti-los a seus receptores.” É inegável o papel social do jornalista nesse caso, que nada se atrela aos interesses econômicos dos seus financiadores.

 

** William Randolph Hearst, nascido em 1863, foi um empresário norte-americano do ramo de editoras que criou uma enorme rede de jornais. Seus métodos influenciaram a indústria do jornalismo nos Estados Unidos. O personagem protagonista do filme de Orson Welles, “Cidadão Kane” (1941), teve inspiração na figura de Hearst. (Fonte: Uol Biografias:https://educacao.uol.com.br/biografias/william-randolph-hearst.htm)

 

Bibliografia

TÓFOLI, Luciene. Ética do Jornalismo. In: TÓFOLI, Luciene. Questões fundamentais do Código de Ética. Petrópolis: Vozes, 2008.

CÓDIGO DE Ética dos Jornalistas Brasileiros. Federação Nacional dos Jornalistas – Fenaj, 2007. Disponível em:http://www.fenaj.org.br/wp-content/uploads/2016/01/codigo-de-etica-dos-jornalistas-brasileiros.pdf

MERCADO de notícias, O. Direção: Jorge Furtado. Casa do Cinema de Porto Alegre. Porto Alegre – RS, 2014. 96 min. Son, Color, Formato: HD.

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

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Os barbeiros da era digital

*Caroline F. Lynch

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Divulgação

Uma peça de teatro do ano 1625 relata uma atividade que acabara de surgir: o jornalismo impresso. A prática e as novas formas de consumir notícias são discutidas pelo cineasta Jorge Furtado em 2014 no documentário “O mercado de notícias”, baseado na peça e vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Audiovisual de Pernambuco no mesmo ano. O sucesso de público não é em vão, uma vez que muito se discute sobre a prática jornalística e o perfil do novo consumidor e produtor de notícias.

No texto da jornalista e pesquisadora Luciene Tófoli presente no livro “Ética no jornalismo”, sobre as questões fundamentais do Código de Ética, alguns autores debatem sobre o que transforma um fato em notícia, já que vivemos um período de velocidade da informação devido ao avanço tecnológico. O que interliga a peça, o documentário e a leitura do texto é um assunto que continua em pauta e muito atual: a forma de praticar o jornalismo.

É sabido que o jornalista tem um compromisso social com a verdade, devendo sempre ouvir os dois lados de uma história, tendo ainda compromisso com a liberdade de expressão, conforme consta do código. Deve-se levar em consideração o conceito da notícia como meio de informação, relatos que estejam em conformidade com o real, com o que aconteceu. O jornalista vai contar aquilo que o leitor não viu, pois não estava no local.

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(Imagem: Blog Texto do dia)

 

Por esta razão é que não se pode tratar a notícia como mero produto vendável. Tóffoli cita a jornalista e pesquisadora Cremilda Medina (1988: 18 – 21), para dizer que a notícia tornou-se um produto de consumo da indústria cultural, produzida através de uma série de interesses, baseada nos critérios de noticiabilidade. Grandes tragédias, morte, fofoca, escândalo atraem a atenção do público que está sempre interessado em assuntos deste tipo.

No século XVII, quando a peça teatral conta sobre a inauguração de uma agência de notícias, fica claro que os assuntos que têm maior procura e maior volume de vendas são os de maior proeminência: casos que envolvem personalidades e o desdobramento dos fatos. A curiosidade sobre flagrantes e vida pessoal de artistas não é assunto do passado. Hoje, com a facilidade de acesso à internet, a procura continua a mesma, só o que muda são os meios de acesso.

 

Sensacionalismo e o espetáculo

O jornalista se vê diante da sociedade do espetáculo e percebe a dificuldade em seguir o artigo 11, inciso II, do Código de Ética, que diz que “O jornalista não pode divulgar informações de caráter mórbido, sensacionalista ou contrárias aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes”.

No entanto, muitos veículos no país se mantêm justamente por seguir esta linha editorial, que além de capas com manchetes agressivas, trazem nas páginas fotos de pessoas mortas ou em situação de extrema violência. É o caso de uma edição do jornal online Carlos Lima, de Feira de Santana, na Bahia. Uma edição de 2011 mostra uma matéria com o título “IMAGENS FORTES: Mulher é esquartejada em via pública em Maceió”, relatando o que motivou o crime e reforçando que, por respeito ao leitor, as fotos seriam quadriculadas. Ocorre que ao descer a barra de rolagem, as cenas aparecem desfocadas apenas no rosto da vítima, o corpo esquartejado continua nítido para quem quiser ver.

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Imagem: https://wagnerfrancesco.jusbrasil.com.br/

O mesmo site apresentou em 28 de maio deste ano, um vídeo que mostra um bebê recém-nascido aparentemente tentando andar enquanto um médico o segura. É claro que nenhuma apuração foi feita sobre tal vídeo, que trata do reflexo da marcha, avaliação de reflexos primitivos realizados por um pediatra assim que a criança nasce. Este é apenas mais um exemplo de como algumas notícias são banalizadas para dar espaço à busca pelo maior número de acessos.

Tóffoli discute ainda sobre a questão da privacidade e o que deve ou não ser publicado. Como já dito, em um período propício atornar sensacional aquilo que não é, da necessidade do exibicionismo exacerbado, é pertinente a discussão acerca do assunto, posto que pessoas públicas que se expõe já sabem que se tornarão notícia. Notícia dentro dos critérios que cada veículo utiliza, fazendo uso desta como mercadoria, como cita o documentário analisado quando se refere ao antijornalismo.  Uma foto de artistas saindo do banco ou segurando as chaves do carro não são de interesse público, mas podem ser de interesse de um público específico, o que consome este tipo de notícia, que sente determinada proximidade com a celebridade por se identificar com esses feitos cotidianos.

 

Erros e o mimetismo

A corrida pelo primeiro lugar, pelo furo da notícia, coloca em pauta a discussão sobre o mimetismo midiático. A prática de apenas copiar o que já foi escrito ou dito por outros meios de comunicação leva aos erros pontuados por Tóffoli (2008, p. 62), diminuindo a importância do jornalista:

 

“O mimetismo midiático gera pelo menos três tipos de consequências: o declínio da veracidade da informação, a falta de polifonia na práxis do discurso jornalístico e o avanço sobre os direitos autorais. Uma equação que vai contribuir para a desvalorização da profissão e para o respeito ao receptor.”

 

Em seu depoimento no documentário “O mercado de notícias”, Renata Lo Prete, jornalista da Globo News, afirma que os erros acontecem e sempre irão acontecer, e responsabiliza a pressa para o fechamento do jornal, mas reconhece que a falha na apuração e pesquisa sobre o A prática sempre existiu, porém se fortaleceu com o crescimento das organizações de comunicação e principalmente com o advento da internet, onde técnicas rápidas e fáceis de cópia são utilizadas sem o menor constrangimento.

É comum ainda observar que muitos veículos nem chegam a alterar os releases enviados pelas assessorias, apenas publicam da forma que recebem, gerando uma série de matérias e notas idênticas em diferentes portais de notícias.

Tal prática pode ser observada quando do acidente que vitimou toda a equipe do time da Chapecoense, em novembro do ano passado. Enquanto leitores e telespectadores aguardavam por notícias, as informações eram exatamente iguais: número desencontrado de mortos, feridos, e o caso mais falado, que foi a declaração do falecimento do goleiro Danilo Padilha.

Na ânsia de dar o furo, uma emissora entrou ao vivo para noticiar que ele estaria vivo e a caminho do hospital, minutos depois, o anúncio de sua morte após uma parada cardíaca enquanto alguns veículos afirmavam que ele seguia com vida e consciente no pronto-socorro. A família relatou ao site Gazeta Esportiva que só teve certeza do que estava acontecendo quando recebeu a informação oficial da Cruz Vermelha. O episódio remete novamente ao Código de Ética (artigo 2º, incisos I e II):

[…] I. a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente de sua natureza jurídica – se pública, estatal ou privada – e da linha política de seus proprietários e/ou diretores; II. a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público. (FENAJ, 2007, p. 1)

O exemplo da notícia do acidente demonstra como os veículos agiram completamente na contramão do que estabelece o código. Quando se fala em novo perfil do jornalista para acompanhar o mercado atual, não se exclui a exigência dos critérios e conduta do profissional, que é buscar a veracidade dos fatos e relatá-los de acordo com a apuração, não com o que o colega escreveu ou disse no telejornal.

Verdade e relação com as fontes

“Certamente que mudanças são necessárias. A verdade no jornalismo é relativa, condicionada, mitificada e útil aos interesses dos veículos e dos próprios profissionais”, menciona Tóffoli (2008, p. 38). O apontamento permite a reflexão sobre a censura que muitos jornalistas sofrem nas redações. Falar a verdade sem ferir a política editorial da empresa, medo de represália caso isso ocorra, opiniões e ideias diferentes da organização são temas de discussão.

Bob Fernandes, jornalista da Rede TV, afirma no documentário “O mercado de notícias” que não conhece “nenhum caso recente de censura do Estado, que tanto temem. E eu conheço, e qualquer jornalista conhece, centenas de casos de censura feitos pelos donos do meio de comunicação. Como é que as pessoas não dizem isso com todas as letras?”.

Ocorre que a mídia no Brasil é um partido político, segundo Mino Carta, diretor da revista Carta Capital. Assim sendo, é difícil para o jornalista que trabalha em grandes organizações brigar para manter suas opiniões sobre determinado assunto. Desde o primeiro contato com a fonte, que também tem interesse em dar voz à suas ideias por meio da notícia, existe o cuidado de repassá-las sem ferir a linha editorial de sua empresa. O que deve, e faz o bom profissional, é analisar criteriosamente se o fato é de interesse público, não apenas do público que a fonte deseja.

Segundo Tóffoli (2008), não há notícia sem a fonte, por isso a relação entre ela e o jornalista deve ser de respeito e confiança, mas não de amizade, como aponta Lo Prete. Independente da política da empresa são as fontes que asseguram o conteúdo das matérias do jornal, por isso o respeito e a fidelidade com o a fala do entrevistado e o que será publicado são importantes.

É comum ler em portais de notícia desabafos de artistas contestando os repórteres que os entrevistaram, alegando que todas as suas declarações foram alteradas para garantir acessos por meio do sensacionalismo criado por falsos depoimentos. Mais comum ainda é observar o compartilhamento dessas notícias como sendo verdade, parafraseando um dito popular da contemporaneidade, “se está na internet, é verdade”.

 

O barbeiro tecnológico

Se no século XVII, conforme o dramaturgo inglês Bem Jonson, autor da peça que gerou o documentário de Furtado, a população procurava o barbeiro da cidade, considerado fonte confiável de notícias, a realidade do século XXI não é diferente. O barbeiro contemporâneo é o usuário das redes sociais, que não se pauta em nenhum critério para difundir notícias, apenas repassa sem conhecimento ou apuração. Confia em outros possíveis barbeiros e precisa sair à frente de outros meios de comunicação.

É de se pensar que com tantos avanços não exista mais quem seja enganado por notícias divulgadas na internet. Infelizmente isso não é verdade. Um site desenvolvido em 2002, o e-farsas, desmente fatos conhecidos no mundo virtual como fakes. Mesmo com tantos anos no mercado, o número de informações fantasiosas não para de aumentar.

O mais recente viral (termo utilizado para algo que tomou ampla e rápida proporção na internet) envolvendo política mostra o Partido dos Trabalhadores (PT) como uma das organizações criminosas mais perigosas do mundo, perdendo até para a máfia russa e italiana. Em poucos minutos a notícia se espalhou e várias pessoas compartilharam sem ao menos saber sua procedência.

O e-farsas faz uma análise sobre todos os fatos apurando os dados para concluir como verdadeiro ou falso. Como é comum a leitura apenas das chamadas das matérias, quem compartilha não se atenta a detalhes como a falta de fontes, datas, documentos que comprovem tais denúncias. São notícias sempre baseadas em hipóteses e geralmente retomam mentiras que já circularam antes nas redes.

Há de se entender que compartilhamento apenas para garantir cliques não é jornalismo, não é notícia. A investigação de fatos é a essência do jornalismo, o contar histórias reais, o factual com responsabilidade. Nesse sentido, o fazer jornalístico nem pode ser comparado à prática que se vê em redes sociais.

Deve haver o olhar crítico diante da leitura de conteúdos noticiosos por parte do consumidor, e o jornalista que utiliza páginas dentro dessas redes como meio de trabalho deve estar ainda mais atento para não se tornar mero barbeiro difusor de informações sem qualquer embasamento, esquecendo do Código de Ética da profissão.

Para Fernando Rodrigues, jornalista do grupo UOL, em entrevista ao documentário de Furtado, “O bom jornalismo vai sobreviver. Sempre que há uma demanda na sociedade para produto de qualidade, para um bom jornalismo, não importa a plataforma onde ele esteja, vai surgir algo novo onde as técnicas do bom jornalismo vão prevalecer”.

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

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Jornalistas em guerra com os rumores e mentiras

* Bruno Santos     

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Reprodução: http://blogacritica.blogspot.com.br/

Rumores e mentiras espalhadas sem nem um teor de verdade causam grandes estragos.  Isso vindo de todos os meios, no senso comum e bem popular das redes sociais e seguido das fake News, torna-se algo mais estruturado. Isso acaba nos trazendo exemplos de casos em que a morte é o resultado final.

Um deles foi reproduzido no dia 26 de maio de 2017 pelo “Olhar Digital”e se referiu a uma notícia que deixa muitos de nós, estudantes e profissionais da comunicação, preocupados com a relação entre a verdade e a mentira. Trata-se da morte de sete pessoas no estado de Jharkhand, na Índia, causada por boatos transmitidos e retransmitidos pelo WhatsApp 

O erro não está no site que publicou (a notícia foi reproduzida do Hindustantime e sim no fato ocorrido). Que fique claro: não defendo os meios de comunicação de massa, mas antes de ser veiculado esse tipo de material eles pensariam e pesquisariam. Pelo aspecto negativo, os meios sofreriam com a perda de sua credibilidade e poderiam até perder o patrocínio de verbas públicas, além de passarem por sanções legais.

Temos exemplos no Brasil também. Há algumas semanas a maioria das emissoras brasileiras, com medo de perder as verbas públicas do governo Michel Temer, deixaram de transmitir um manifesto contra as reformas Trabalhista e da Previdência. No exato momento em que a polícia estava atacando os manifestantes e vice-versa nada foi ao ar a não ser os vídeos que os participantes do protesto fizeram. 

Já quanto à rede social em questão aqui, o WhatsApp, a ética é um quesito que fica de fora. Ainda mais quando nesse meio não existe nenhum tipo de barreira profissional de um jornalista ou um outro profissional da comunicação. Os boatos se espalham sem comprovação das fontes.

A verdade no relato dos fatos

Luciene Tóffoli, em seu livro “Ética no jornalismo” (2008), analisa a verdade como um ponto crucial da profissão. A jornalista e pesquisadora ressalta a importância do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros e ao fazê-lo chama a atenção, entre outros parágrafos, para o 4º: “O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação”.

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Medina: crítica à mentalidade capitalista da notícia. (Imagem: Alexandra Martins/UnB Agência).

O senso comum hoje é o critério de noticiabilidade. A verdade é deixada em segundo plano, sem interesse comercial, neste caso feito apenas para grupos se sentirem incluídos na sociedade de consumo. Com a internet, a vontade de ser jornalista sem formação se potencializou.

Tudo é motivo de publicação e veiculação. Diante dessa sociedade de consumo e antes mesmo do boom da rede mundial de computador, a jornalista e pesquisadora Cremilda Medina já efetuava uma forte crítica a partir de um olhar marxista. No livro “Notícia, um produto à venda: jornalismo na sociedade urbana e industrial (1988)”, a autora menciona que a produção jornalística faz parte de um  complexo mercantil que fabrica produtos de consumo da indústria cultural.

 

Os interesses

Tóffoli (2008, p. 29),  enfocando sua preocupação em enumerar alguns interesses que formam uma pirâmide na produção da notícia, o que se pode perceber na “notícia” falsa espalhada pelo WhatsApp na Índia. Trata-se, entre outros, da importância das consequências, o interesse humano pelo assunto, seu ineditismo, aspectos de rivalidade, utilidade social e entretenimento. Vários desses aspectos podem ser usados para analisar esse acontecimento.  Todos ligados por um laço de pertencimento cultural.

A autora (2008, p. 49), destaca que desde a antiguidade, tomando-a no sentido mais amplo, de novidade e de algo de interesse público ou de grupos sociais, a notícia tem sido uma forma de transmitir experiências isto é, “a articulação simbólica que transporta a consciência do fato a quem não o presenciou”. Analisando o fato em discussão como proveniente de boatos, já que de acordo com o delegado superintendente da região, Aminesh Naithany, “nem um único caso de sequestro de crianças foi reportado na área”, algo que não aconteceu não podia ter sido espalhado, mas articulação simbólica já estava sendo vinculada ao mesmo tempo e que corria a “notícia” falsa.

Afinal, o que é notícia?

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Lage, autor fundamental nos cursos de Jornalismo. (Imagem: Do blog O Cafezinho)

Nesse rede complexa de informações, é importante recordar as palavras do jornalista e pesquisador Nilson Lage (2001, p. 54), para quem notícia  é um “Relato de uma série de fatos a partir de um fato mais importante, e este, de seu aspecto mais importante”.  Se não nos atentarmos ao parâmetro dado por Lage, palavras como “importante” perdem seus valores abstratos, como o de verdade e o de interesse humano.

O autor complementa, dizendo que “a notícia se constitui de dois componentes básicos: o logico e o ideológico. O primeiro se caracteriza por um saber submetido a preceitos das teorias comunicativas. Já o segundo abriga critérios de valores que podem mudar com o tempo”. A partir dessa conceituação podemos entender o fato em si. Portanto, se as pessoas tivessem o mínimo de entendimento do que é notícia, tentariam amenizar esse tipo de boato e começariam a se ater a um pensamento mais lógico

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

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ATIVIDADE PEDAGÓGICA – O caso dos exploradores de cavernas

* Gibran Luis Lachowski

Mostrar a responsabilidade que @ jornalista tem nas mãos: este é um dos objetivos da disciplina  “Ética e Legislação Jornalística”, ministrada no sexto semestre do curso de Jornalismo da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat)/campus de Alto Araguaia. Uma das formas de se desenvolver isso é, num primeiro momento, apresentar o cenário da ética e da moral a partir da filosofia geral e buscar conexões com situações-limite . Acredita-se que essa proposta pedagógica também contribua para uma formação que estreite laços com os observatórios de mídia e em específico com “Boca da Mídia” .

Neste semestre (durante abril e maio), o processo começou com a leitura e discussão de um percurso conceitual, dos antigos filósofos gregos à contemporânea crítica ao iluminismo, com o auxílio de Aranha e Martins (1993)  e Chauí (2000). Em seguida procurou-se um diálogo com o livro “O caso dos exploradores de cavernas”, de Lon L. Fuller, cuja história se passa no fictício ano de 4.300 e trata do julgamento de espeleólogos que matam para matar a fome. Um clássico nos cursos de Direito mundo afora e que cabe muito bem para uma turma de acadêmicos de Jornalismo, dada a lida diária com fatos que interferem nas vidas de muita gente.

FOTO POST APRESENTAÇÃO - sebodomessias.com.br

Imagem: sebodomessias.com.br

Nessa etapa houve leitura da obra em sala de aula, apresentação de veredictos sobre o caso e a posterior produção dos seguintes textos para este blog, trazendo um resumo das exposições orais:

Os meios justificaram os fins

Dentro da caverna, nem Estado e nem lei

Acordo para matar não vale, mesmo que seja para matar a fome

E se eu estivesse na caverna?

Homens adultos conhecem as regras

Entre a Bíblia e a Sobrevivência

 

A roda de conversa

Com a apresentação dos veredito retrocedeu-se a história, entregando nas mãos da turma a possibilidade de manter ou reformar a sentença da Suprema Corte de Newgarth, que ratificou a decisão de pena de morte pela forca aos exploradores dada pelo Tribunal do Condado de Stowfield em razão de um empate (dois votos pela condenação, dois pela absolvição e uma abstenção).

As apresentações ocorreram em uma roda de conversa e houve momentos para perguntas e comentários dos colegas e ponderações do professor. As exposições, conforme orientação pedagógica, buscaram conectar pontuações dos juízes, observações de Aranha e Martins e Chauí  sobre moral e ética, além de opiniões colhidas junto a estudantes, colegas, autoridades jurídicas, religiosos, docentes e parentes. A turma também buscou embasamento em legislação, pesquisa científica e no filme “O senhor das moscas”, que foi transmitido anteriormente em sala de aula como força de aguçar a relação entre os conceitos expostos e situações-limite passíveis de acontecer.

 

Relações com o jornalismo 

Na finalização da roda de conversa fez-se uma avaliação com o intuito de se perceber relações entre a atividade pedagógica e o jornalismo. Apontamentos gerais a seguir:

– exercício da entrevista/diálogo/conversa/escuta;

– a importância de pesquisar para saber o que/como perguntar/dialogar com pessoas

– exercício da apuração e gerenciamento das informações, entre o levantado e o apresentado;

– “morreu” mais uma vez a ideia de imparcialidade, vez que pontos de vista diferentes foram expressos e sustentados;

– “todos” os lados foram mostrados, e isto é bom para saber o que falar e como passar a informação ao público.

* Professor do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia e docente da disciplina de Ética e Legislação Jornalística neste semestre

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Os meios justificaram os fins

* Luiza Purcino

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Imagem: bruninhapdf.blogspot.com.br

Iniciando pelos conceitos de moral e ética, segundo Aranha e Martins (1993), em “Filosofando: Introdução á filosofia”, o primeiro é o conjunto de regras que determinam o comportamento dos indivíduos em um grupo social e sua ação de acatar ou transgredir as normas na época em questão, sendo o segundo a reflexão sobre os princípios básicos que fundamentam esse tipo de vida.

Relacionando as definições das autoras com a obra de Fuller, pode-se levar em conta o contexto histórico da época, ano imaginário de 4.300. Além disso, as leituras sociológicas e jurídicas.

Sob o contexto social, trata-se de membros da Sociedade Espeleológica – organização que explora cavernas. Os quatro acusados na companhia de Whetmore penetraram o interior de uma caverna, que infelizmente sofreu um desmoronamento, bloqueando a única saída, sendo libertados após 32 dias. Todo esse tempo que os réus passaram na caverna foi marcado por muita ansiedade e desespero. Somado a isso, tiveram que suportar altas temperaturas, pouca luz e um ambiente muito úmido.

 

Prisão subterrânea

Tudo isso gerou um enorme desconforto no ambiente. Somente vinte dias após o deslizamento foi que conseguiram estabelecer contato com o mundo exterior, por meio de um rádio capaz de receber e enviar mensagens. Até então, não tinham mais expectativas de voltarem à civilização.

 

“(…) novos desmoronamentos poderiam acontecer.”

 

Esta prisão subterrânea deixou estes homens enfraquecidos psicologicamente, uma vez que a saudade dos familiares só aumentava e a dor que a fome trazia tornava-se cada vez mais intensa.

Os engenheiros responsáveis pela operação de salvamento, em comunicação com os exploradores, disseram-lhes que precisavam de pelo menos dez dias para libertá-los. Porém, os médicos presentes no local disseram que provavelmente eles não conseguiriam sobreviver por mais dez dias em face de suas escassas provisões de alimentos. Além disso, novos desmoronamentos poderiam acontecer.

Desesperados, estes homens passaram o resto do dia pensando num plano que pudesse evitar suas mortes por inanição. Logo surgiu uma ideia. Whetmore convenceu o restante do grupo a sacrificar um dentre eles para que servisse de alimento para os demais. Mas quem iria ser sacrificado? A resposta a este problema seria dada por meio do lançamento de dois dados.

 

Um caso paralelo

Essa situação pode ser relacionada ao filme visto em sala de aula, “O senhor das moscas”, de Harry Hook (baseado no livro de mesmo nome, de William Golding), no qual crianças se veem isoladas numa ilha e após um tempo dividem-se em dois grupos devido a disparidades ideológicas em meio a uma paisagem desconhecida e à constante busca de proteção e alimento.

Segundo informação da Sociedade Internacional para Pesquisa Nutricional Psiquiátrica (ISNPR) publicada na revista científica The Lancet Psychiatry, “a alimentação é “determinante central” em relação à saúde física e mental. Além disso, “Embora os determinantes da saúde mental sejam complexos, as evidências emergentes e convincentes de que a nutrição é um fator crucial na alta prevalência e incidência de distúrbios mentais sugerem que a dieta é tão importante para a psiquiatria quanto a cardiologia, a endocrinologia e a gastroenterologia”, menciona a entidade.

Portanto, a escassez de alimento justifica as ações tanto dos exploradores quanto dos garotos de “O senhor das moscas”.

 

Até a lei

Acrescenta-se a essa ponderação o fato de que o estado de necessidade está assegurado em lei, como se vê no artigo 24 do Código Penal do Brasil. Diz o documento: “Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio cujo sacrifício nas circunstancias não era razoável exigir-se.”

As leis são moralmente construídas e a ética e o conceito de justiça, variantes. Isso explica que a própria legislação disponha de exceções e também que sua existência seja baseada na moral para estabelecer a ordem. Ou seja, moralmente colocando, nos dias atuais é inaceitável ações como canibalismo, incesto, mas existem exceções. Exceções contextuais, culturais etc.

 

Veredicto

Pelo exposto, meu voto é pela reforma da sentença, pois se as penas são formas de retribuição à sociedade, qual a coerência em retribuir uma morte com outras? Além de que, no contexto da situação, os réus não eram capazes de agir conscientemente. Os meios justificaram os fins. E o se o isolamento é visto juridicamente como cárcere, porque nesse caso não ser considerado?

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

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Dentro da caverna, nem Estado e nem lei

* Kálita Skilof 

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Imagem: mpfragmentos.blogspot.com.br

Em resumo, o livro conta um caso em que em seguida a um desmoronamento cinco espeleólogos ficam presos em uma caverna. Após vários dias naquela situação os exploradores descobrem que possuem mais dez dias dentro do ambiente e que talvez possam não sobreviver por inanição. Por conta disso resolvem matar um dos ali presentes, Roger Whetmore, para se alimentar.

Este é um caso fictício. O autor conta a história baseando-se em dois casos reais – Queen versus Dudley e Stephens (L.R. 14Q.B. Div.273; 1884) e United States versus Holmes (1 Wall. 1; 1842) – para ajudar nas reflexões críticas, em circunstâncias que as sentenças são mais complicadas.

Na história apresentada, dos exploradores, desde o início já existe uma decisão da primeira instância para que os réus sejam julgados à pena de morte, mais especificamente, à forca, que é mantida em novo tribunal.

 

Já sofreram demais

Acredito que os exploradores de caverna não devem ser condenados. A meu ver, a sentença deveria ser reformada, inocentando-os.

Além de terem sofrido bastante ao longo dos mais de 30 dias em que ficaram presos e estarem com o estado de sanidade mental comprometido, eles não estavam sob a “lei do Estado”. Naquele momento a “lei da sobrevivência” prevaleceu e os espeleólogos tiveram a necessidade de matar para continuar vivendo.

Ainda defendo que, naquele momento, eles viram a morte do colega como uma forma de todos os outros não virem a óbito. Lutavam a favor da sobrevivência, pois a morte era iminente e incontrolável.

Como explica o juiz Foster (p. 23), um dos magistrados integrantes do Tribunal de Newghart, segunda instância judicial: “Quando o fundamento lógico da excludente da legítima defesa é assim explicado, torna-se evidente que, precisamente a mesma razão é aplicável ao caso sub judice”.

 

“Naquele momento a ‘lei da sobrevivência’ prevaleceu e os espeleólogos tiveram a necessidade de matar para continuar vivendo.”

 

Em qualquer constituição a morte é punível, mas neste caso os exploradores iriam morrer de fome. Afinal, como expõe Sócrates, as condições em que vivemos são o que molda nossos comportamentos. Nesse sentido, é perceptível que as condições que os réus viviam naquele momento eram de extrema calamidade, e, portanto, sim, ali eles viviam em um “estado de necessidade”.

 

Ouvidos atentos

Para concretizar as ideias expostas, conversei com algumas pessoas para que elas pudessem opinar sobre o caso. De cinco entrevistados apenas um confirmou o julgamento de primeira instância, de pena de morte, porque acredita que os réus cometeram homicídio.

Resumidamente, as outras quatro pessoas alegaram que os exploradores de caverna “mataram para sobreviver”, (tratava-se de um) “caso extremo de vida ou morte”, (de) um “estado de necessidade”, posições que reforçaram minha posição, de inocentar os réus.

* Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

 

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Acordo para matar não vale, mesmo que seja para matar a fome

* Kaio Henrique Magalhães 

Cinco homens foram explorar uma caverna, mas houve um desmoronamento que tampou sua única entrada. Dentro de algum tempo a família, percebendo a demora, pediu ajuda ao resgate. A operação foi difícil, pois novos desmoronamentos ocorriam, e num deles dez operários morreram. Depois de 20 dias a equipe de resgate conseguiu comunicar-se com os exploradores através de um rádio, pelo qual eles perguntaram, a partir de Roger Whetmore, quanto tempo demorariam para sair. A resposta foi mais dez dias. Depois indagaram para o médico que compunha o resgate se poderiam sobreviver sem comer pelo referido tempo, ao que o profissional disse que provavelmente não 

Houve algumas horas de silêncio até o próximo contato via rádio, e então eles perguntaram se comendo carne humana poderiam sobreviver. O médico respondeu que provavelmente sim. Então os exploradores recorreram às autoridades religiosas, políticas, médicas sobre a ideia de sortear o sacrificado num jogo de dados, mas ninguém aceitou participar da decisão. A ideia dos dados foi de Whetmore, mas antes do lançamento das peças ele pediu para adiar o ato por sete dias, mas seus parceiros não aceitaram sua postura, então Whetmore perdeu, foi morto e comido.

nicolasmejia.aprenderapensar.net

Imagem: nicolasmejia.aprenderapensar.net

Algumas pontuações

Através da leitura do livro venho apresentar meus argumentos antes do veredicto final.

Quando Whetmore deu a ideia de jogar a sorte nos dados para ver quem deles iria servir de alimento, ele agiu sob impulso, porém após observar que não era a melhor a ideia desistiu do trato, ao que seus colegas alegaram que o explorador estava violando o acordo. Mesmo sem o consenso os outros quatros espeleólogos jogaram os dados, inclusive um deles lançou-os para Whetmore, que teve a sorte adversa, como se sabe.

Bem, se eles tinham consciência para planejar como iam fazer para tirar a vida de um dos integrantes do grupo, também sabiam que estavam cometendo um crime, pois todos lá dentro da caverna eram pessoas com estudo, sabiam das leis e das consequências de desrespeitá-las, afinal, matar alguém, mesmo que para sobreviver, é homicídio.

 

“(…) nenhum acordo é válido se não estiver estabelecido conforme a lei manda.”

 

Em muitos países pessoas morrem de fome, pais veem seus filhos sem comer diariamente e nem por isto eles saem matando pessoas para satisfazer a fome. Então, porque dentro da caverna o assassinato deve ser justificado e fora dela não? É algo que devemos pensar.

Não acredito que tinham necessidade de matar uma pessoa naquele momento, eles poderiam esperar que o mais fraco morresse primeiro para os outros quatro se alimentarem. Portanto, não aceito que o termo de “lei de sobrevivência” seja aceito aqui, pois, como todos sabem, os mais fortes sempre ganham.

 

Perguntas, perguntas, perguntas

Então, porque matar? Por que não excluir Whetmore, que desistiu na última hora do jogo, e continuarem o lançamento de dados entre os quatros que mantinham o interesse em participar?

Não dá pra aceitar que uma vida humana não tenha tanto valor a ponto de ser aceito um acordo para tirá-la. Sem falar que nenhum acordo é válido se não estiver estabelecido conforme a lei manda.

Para finalizar, gostaria que imaginassem como foi que Roger Whetmore foi morto, porque no livro não temos detalhes da morte dele. Imaginem se fosse um filme? Será que vendo tudo como aconteceu teríamos o mesmo pensamento? Afinal, a historia é contada pelas mesmas pessoas que mataram o explorador de cavernas. Será mesmo que tudo o que foi contado pelos sobreviventes é verdade?

Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia 

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E se eu estivesse na caverna?

* Daniela Meinerz

De acordo com o livro de Lon L. Fuller, cinco escavadores ficaram presos em uma caverna após um desmoronamento. Eles permaneceram lá por mais de 30 dias e precisaram se alimentar de carne humana para sobreviver. Após o desmoronamento os escavadores perderam o contato com as pessoas fora dali, mas 20 dias depois conseguiram fazer contato através de um rádio velho e puderam conversar com engenheiros e médicos que trabalhavam para tirá-los dali. Representados por Roger Whetmore, os espeleólogos perguntaram aos engenheiros quanto tempo ainda levaria para serem retirados da caverna e a resposta foi de pelo menos dez dias.

O diálogo caverna-mundo

Indagou-se à equipe médica se eles sobreviveriam sem comida por mais dez dias e a resposta foi a de que provavelmente não. Então, os cinco exploradores ficaram sem contato com o lado de fora por cerca de oito horas e no retorno fizeram outra pergunta aos médicos: se eles comecem carne humana, conseguiriam sobreviver? Os profissionais não quiseram se pronunciar, assim como nenhuma autoridade política ou sacerdote. Após isso, os espeleólogos não fizeram mais contato. Lá dentro eles tinham decidido a partir de uma ideia de um deles, Roger Whetmore, que deveriam tirar na sorte quem iria morrer para salvar os outros, isto através de um jogo de dados que ele possuía em seu bolso. Todos concordaram com a ideia, mas na hora de lançar os dados, Whetmore achou melhor esperar. Seus companheiros não aceitaram e jogaram os dados no lugar dele. Por azar, ele foi escolhido para morrer e assim ocorreu.

Após o resgate e com a descoberta do homicídio, foram indiciados. Em primeira instância eles foram condenados à morte pela forca, recorreram da decisão e tiveram julgamento em segunda instância pela Suprema Corte de Newgarth. Cinco juízes decidiram pela condenação ou não dos réus: Truepenny, Foster, Tatting, Keen e Handy. Como houve um empate com dois votos a favor e dois contra a condenação, além de uma abstenção, manteve-se a sentença anterior de morte pela forca.

 

Colocando-me no lugar deles

Eu não condenaria os exploradores de cavernas à pena de morte, e muito menos pela forca. Isso porque eu sou contra a pena de morte e não acredito que se paga a morte de um com outra vida. Isso vai contra os meus princípios cristãos e, se olharmos pelo Cristianismo, fala-se que matar é pecado e, aliás, um dos dez mandamentos é não matar.

E mesmo que os quatro tenham matado o outro, acredito que não foi por maldade e sim por falta de opção, e além de tudo, a ideia foi da própria vítima, mesmo que isso não justifique o ato.

 

“Indagou-se à equipe médica se eles sobreviveriam sem comida por mais dez dias e a resposta foi de que provavelmente não.

 

Mas me colocando no lugar dos exploradores, eu imagino o quanto foi difícil suportar aquele lugar, como o estado psicológico deles estava abalado… em um lugar quente, fechado e sem saber o próprio destino.

Eu acredito que sim, eles devem pagar pelo que fizeram, até porque não seria justo com a família de Roger Whetmore eles simplesmente saírem ilesos, mas acho que cabe uma pena de seis meses a um ano de reclusão.

* * Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia 

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Homens adultos conhecem as regras

* Caroline F. Lynch

FOTO POST CAROL filmesparadoidos.blogspot.com.br

Imagem: filmesparadoidos.blogspot.com.br

A obra de Lon Fuller, “O caso dos exploradores de cavernas”, foi lançado no Brasil em 1976 e sua leitura é até hoje aplicada em estudos e aulas não à toa, uma vez que o tema é bastante atual. 

 

Retrospeciva

Um grupo de colegas exploradores que se vê preso em uma caverna sem contato com qualquer pessoa do lado de fora, reserva de água e alimentos chegando ao fim, escuridão e medo. Impossível saber o impacto psicológico e a adrenalina que pessoas nesta mesma situação podem sofrer, a menos que já se tenha vivido algo parecido.

A história conta que após longos dias de espera pela conclusão do resgate, um dos integrantes, Roger Whetmore, questiona o médico da equipe sobre as chances de sobrevivência com a falta de alimento e sobre a possibilidade de ingerir carne humana até que o resgate chegasse até eles. Ocorre que ninguém quer responder a tal indagação, tamanha a responsabilidade de dar o aval para o ato.

Whetmore volta atrás em sua ideia de fazer um sorteio e sacrificar a vida de um dos integrantes do grupo, mas ainda assim o lançamento de dados ocorre e ele é o escolhido e assassinado para alimentar os demais. Três dias após o ocorrido, os homens são resgatados e condenados à forca em decisão judicial pela morte do companheiro.

 

Da sala de aula para a caverna, da caverna para a…

Então começa a análise dos fatos para o julgamento enquanto exercício da disciplina de Ética e Legislação Jornalística. Não se sabe (e nunca se saberá) como foi feito este acordo, quem foi o autor do homicídio e se, de fato, Roger aceitou entrar no sorteio.

A filosofia defende que a situação transforma o homem, mas esta transformação chega ao ponto de fazer com que ele se esqueça dos preceitos de civilidade? Se o contato com o resgate já havia sido estabelecido e se sabiam que, pela lei da sobrevivência, o mais fraco morreria por inanição, não seria mais ético esperar para que o corpo servisse então de alimento? Muitos questionamentos foram levantados até que se chegasse à conclusão da condenação. Talvez a que tenha maior peso é pensar que, vivendo em sociedade desde o nascimento, o homem está habituado a respeitar regras e leis, que continuam valendo mesmo que dentro da caverna.

 

“Devo confessar que não é um julgamento fácil de fazer, mas (…) entendo que seguir regras estabelecidas é ainda o mais correto.”

 

O grupo de exploradores estava em um ambiente sem essas regras e leis, então, criaram suas próprias, esquecendo-se que mesmo aquele pedaço de terra pertencia ao Estado e que todos os envolvidos estavam errados, a vítima que teve a ideia, os médicos e a equipe de resgate, que preferiram não responder ao questionamento para não terem responsabilidade no crime que eles sabiam que aconteceria.

O fato de “não estar na sociedade civil” não significa ter total liberdade para fazer o que se quer. Reforço mais uma vez que homens adultos sabem as regras de civilidade. Tiveram, mesmo que sem alimento, plena consciência e lucidez para cometer tal ato. Então não sabiam que poderiam pagar por isso ao saírem?

Julgo culpados todos os envolvidos, mas com a comutação da pena de morte para reclusão de um ano pelo menos, porque além da família da vítima, toda a sociedade espera uma resposta em relação a atos que violam regras. Pena de morte não seria coerente, já que muito dinheiro foi investido no resgate para salvar todos com vida.

 

Casos jornalísticos

Devo confessar que não é um julgamento fácil de fazer, mas, ao pensar em temas como a ética e a moral, entendo que seguir regras estabelecidas é ainda o mais correto. Discutimos alguns casos no jornalismo atual que remetem a este caso. Grandes mídias que trabalham em benefício próprio e deixam de lado qualquer preocupação com o receptor e o impacto que as notícias manipuladas causarão.

Jornalistas que se veem reféns das emissoras sem poder exercer seu papel informativo, como se viu no clássico caso do debate nas eleições de 1989 entre Collor e Lula, quando a manipulação da TV Globo foi nítida e a maior parte da população se deixou levar pelas técnicas de edição elegendo Collor para Presidente da República (o resto da história nem preciso aqui relatar). Somente anos após este fato, ex-funcionários da emissora confessaram que muitos eram contra mas que tinham que obedecer as ordens. O documentário “Muito além do Cidadão Kane” expõe essas e outras distorções.

 

 

No caso do livro de Lon Fuller, todos os envolvidos também sabiam do erro que cometeriam, porém se deixaram levar pela opinião da maioria e pensaram no meio mais fácil de sobreviver e sacrificaram o colega.

Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia 

 

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Entre a Bíblia e a Sobrevivência

* Bruno Rosa dos Santos

O caso dos exploradores de cavernas consiste em seu interior numa análise muito complexa a ser feita. Olhando tantos fatos e notando-os em seus mínimos detalhes, percebemos pontos para que possamos incriminar (continuar com a condenação dos cinco indivíduos) ao mesmo tempo que enxergamos quesitos para inocentar. Ou até, em meu caso, de ficar dividido, não me referindo a uma abstenção, mas sim ao fato de eu ficar em um limbo no qual não consigo me decidir sobre se os condenados (judicialmente) perdem ou não a cabeça.

Em minha análise, se eu fosse condenar, usaria apenas a moral cristã. Mas olhando o caso em detalhes, não estamos na inquisição católica. Porém o enredo da história lembra a Idade das Trevas, posto que na localidade fictícia existe uma pena de morte para resolver essa situação.

 

Esmiuçando

De acordo com a bíblia sagrada, um homem não pode ser condenado se ele não conhecer a lei. No entanto, pela história dos exploradores, escrita por Lon L. Fuller, entende-se que eles eram pessoas esclarecidas quanto às leis. Poderiam ser condenadas por esse motivo.

FOTO POST BRUNO

Imagem: blogjatefalei.wordpress.com

Os espeleólogos quando estavam dentro da caverna adquiriram uma certa liberdade. Liberdade criada por meio do contrato social que eles fizeram entre si para resolver quem seria a pessoa a ser morta e servir de alimento aos outros. Nesse ponto é bom lembrar do capítulo “A filosofia moral”, do livro “Filosofando: Introdução à filosofia”, de Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins, em que a moral cristã e até alguns pensadores do iluminismo dizem que o primeiro impulso de nossa liberdade nos dirige para fazer o mal. Pois se na moral cristã, quando transgredimos a punição vem por meio da morte – figurativa, de espirito –, no caso retratado no livro a morte é literal, na forca, podendo até mesmo agregar-se às outras dez, que aconteceram por motivo de um deslizamento para salvar os exploradores.

 

Sozinhos, por conta própria

Passando para o veredito que para mim faz mais sentido, pego como exemplos as falas do personagem juiz Tatting. Ele se abstém, deixando o caso nas mãos dos outros magistrados, mas sua postura é persistente, baseando-se na questão do naturalismo. Porque os exploradores estavam fora das leis dos homens, sozinhos, por conta própria. Esse tipo de situação faz com que os homens sigam seus instintos naturais.

Para ilustrar essa atitude, cito uma passagem do texto já mencionado (estudado em sala de aula), em que Aranha e Martins (1993) resumem o que é ética para os antigos filósofos gregos e romanos em três aspectos, sendo eles o racionalismo, naturalismo e a “inseparabilidade entre ética e política”. Destaco o segundo aspecto, que consta da página 42: “A vida virtuosa é agir em conformidade com a natureza”. Entenda-se natureza nesse caso pelo cosmos e pela nossa própria natureza (parte do todo natural).

 

“Mas olhando o caso em detalhes, não estamos na inquisição católica.”

 

Entretanto, por trás disso existe uma contradição em associar a situação dos exploradores dentro da caverna ao naturalismo. Eles tiveram consciência ao fazer um contrato para ver quem ia ser a refeição. O instinto natural ainda não havia deteriorado os sentidos deles e na hora de lançar a sorte nos dados aquele que propôs a alternativa voltou atrás, mostrando que seu senso lógico estava intacto ainda.

Mesma contradição que orientou a opinião de uma de minhas entrevistadas. A professora de Psicologia, Valéria Meti, primeiro se mostrou contra a decisão de pena de morte, contudo vendo que eles poderiam ter esperado mais um pouco alguém definhar e morrer, mudou de posição, colocando-se em abstenção. Afinal, os exploradores deixaram de lado sua civilidade e agiram por conta de um instinto de sobrevivência que falou mais alto.

 

Meu julgamento

Minha decisão, exposta em discussão na sala de aula, foi a de inocentá-los, mas levando em consideração essas novas reflexões admito que minha decisão foi sem raciocínio pleno. Nesse caso, prefiro me abster, não decidir, e seguir o exemplo do juiz Tatting. Os espeleólogos perderam a luz da verdade moral em que viviam mesmo depois do contrato social, que era algo civilizado que fizeram entre si, e decidiram matar, mas poderiam ter decidido esperar mais algum tempo. Mesmo assim passaram por cima do acordo, e isto não poderia ser qualificado como algo moral ou ético, mas sim algo psicológico, já que nosso consciente nos obriga a fazer coisas espantosas na falta de um exemplo de dignidade, moral ou ética.

Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia 

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